Na exposição Caminho do santo, a artista plástica Ana Veloso investiga a devoção ao Padre Cícero, mais de 70 anos após sua morte Carolina Santos carolinasantos.pe@dabr.combr
Exposição Caminho do Santo faz uma pesquisa sobre a devoção. Imagens: Carolina Santos/DP/D.A Press
"Valei-me padim Ciço!" era uma das expressões que a artista plástica Ana Veloso mais escutava nas ruas quando mudou seu ateliê do Recife para um povoado no Agreste, há seis anos. Nas entradas das cidades e na frente das casas, lá estava o Padre Cícero de novo, petrificado com chapéu de palha na cabeça, batina preta e cajado nas mãos. "Quando a gente anda no interior, a cada meio metro encontra com ele. Isso de uma certa forma foi me contaminando, me chamando atenção. Comecei a me interessar por quem foi o Padre Cícero e o porquê daquela devoção ainda tão forte mais de 70 anos após a morte dele", conta Ana Veloso. A investigação sobre a figura do padre resultou na exposição Caminho do santo, que será inaugurada hoje, às 19h, no Centro Cultural dos Correios.
Deputado, prefeito, religioso. Amigo de Lampião e de coronéis, Padre Cícero é figura das mais contraditórias. Na pesquisa para entender a devoção, Ana Veloso visitou santuários no Interior e foi parar em Juazeiro do Norte, cidade cearense que o padre emancipou e governou. Lá, ficou ainda mais comovida pela fé do povo. "Dos mais pobres aos mais ricos, todos choravam. Em termos de multidão, perde para o Galo da Madrugada", descreve.
Caminho do santo começou com poucas peças - ano passado passou três meses numa sala no MAC, em Olinda - e agora, completa, ocupa 380 metros quadrados com obras que remetem à figura do padre e principalmente aos devotos e romeiros. Uma das quatro salas da exposição é dedicada aos ex-votos, peças como braços, pernas e cabeças talhadas em madeira que são levadas às capelas e igrejas para pedidos de cura. Alguns dos ex-votos da mostra são de coleções particulares e outros foram emprestados por santuários. "Eu quero que esses objetos sejam vistos como representantes da arte popular. Muitos artesões começam a trabalhar fazendo peças assim", conta Veloso. Em outra sala, há uma instalação com vasos de cerâmica que em meados do século passado ficavam cheios de água em frente às casas do caminho dos romeiros. "Acho que a figura do padre Cícero ainda hoje é um mistério. É o mistério da fé que ele emanava para aquele povo. Era um homem sabido: soube se comunicar com todas as classes sociais e políticas. A Igreja que o expulsou em determinada época, agora depende dele no Ceará", afirma Veloso.
A parte autoral da exposição é composta por 38 quadros de acrílico em tela. Muitos deles com trechos de orações populares dos romeiros: para curar espinhela quebrada, afugentar mau olhado, consertar osso quebrado. E a oração que, reza a lenda, Padre Cícero deu a Lampião, que a teria mantido no bolso até a morte.
Algumas das peças de Caminho do santo, como os tapetes no chão e as figuras de cerâmica, foram confeccionadas por artistas dos povados de Sítio Rodrigues e Volta do Rio, em Belo Jardim. Lá, Ana Veloso desenvolve um trabalho de capacitação com as comunidades. Hoje, cerca de 40 desses artesãos irão fazer uma performance na inauguração da mostra, vestidos de batina preta, chapéu de palha e cajado. "Alguns têmo sonho de entrar no Big Brother. É um povo que convive sem conflitos com a fé no padre e na TV", diz Ana. Caminho do santo é não só um retrato de um Nordeste de fé e devoção, mas também o registro de um povo que não desiste de acreditar em milagres.
Serviço
Caminho do santo
Onde: Centro Cultural dos Correios (Av. Marquês de Olinda, 262, Recife Antigo) Quando: Aberta até 30 de julho (seg a sex: 9h às 18h; sáb e dom: 12h às 18h) Mais informações: 3224-5739