Diario de Pernambuco


Um anjo nutrido pela vontade
Recife, domingo, 15 de abril de 2012
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confira o espetaculo 'VAREKAI' do Cirque du Soleil. Imagens:Cirque du Soleil/Divulgação

Brasileiro Raphael Botelho foi marceneiro e mecânico antes de se tornar integrante do Cirque du Soleil. Imagem: EDILSON RODRIGUES/CB/D.A. PRESS
Os primos jogavam capoeira com Mestre Canela e o convidaram para entrar na roda. Ele tinha nove anos e morava em São Gonçalo, na região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Na casa dividida com mais três irmãos, Raphael Botelho Nepomuceno, hoje com 29 anos, diz que teve a ajuda de Deus e da família para superar as situações adversas e vencer na vida. Agora, está num posto cobiçado por muitos artistas de sua geração: é contratado pelo Cirque du Soleil como um dos personagens principais de Varekai, espetáculo que iniciou a turnê brasileira em São Paulo, no ano passado, e fica em cartaz no Recife até o próximo domingo, dia 22 de abril, na tenda azul e amarela montada na Avenida Boa Viagem (no terreno ao lado do Hospital da Aeronáutica).

E o que foi necessário fazer para alcançar o emprego dos sonhos de muitos circenses? “Arriscar tudo. É preciso passar por várias etapas, mas se está em seu coração e você sente que é aquilo que quer, vai”, aconselha Raphael, que chegou a ser recusado numa outra seleção para a trupe internacional, em 2006. “Acreditei e fui em frente. Não dei mole, meti “bronca” e fui me aperfeiçoando”, conta com um delicioso sotaque carioca ainda bem presente, já que entrou para o Cirque há pouco tempo, em 2010.

Raphael empresta agilidade e destreza ao Anjo Manco, que dança com a ajuda de um par de muletas em Varekai, fazendo uma dúvida pairar entre os espectadores: será que, assim como o personagem, o artista também é deficiente? Ao contrário de seu antecessor, um alemão, Raphael Botelho não teve paralisia nas pernas. Quando foi destacado para fazer o Anjo Manco, além de uma temporada de sete meses em Montreal, no Canadá, na sede do Cirque du Soleil, o carioca aprendeu nos Estados Unidos, durante três semanas, a técnica do solo com suportes (solo on crutches) com o dançarino e coreógrafo Bill Shannon, que teve uma doença grave e perdeu os movimentos das pernas. “Vim da capoeira e da dança de rua. Fui b-boy e participei de campeonatos de break dance. Hoje, tenho aulas de Pilates, faço fisioterapia, vejo os vídeos dos que fizeram o personagem antes e da minha performance no Varekai”, ressalta o brasileiro, que estudou apenas até a antiga 6ª série primária (hoje 7º ano fundamental) e já trabalhou como marceneiro e mecânico, antes de abraçar a carreira artística.

Raphael teve uma filha, Ranyele, aos 17 anos, fruto do primeiro casamento, e precisou trabalhar cedo para ajudar a pagar as contas. Especula-se que um artista do Soleil ganhe um salário de cerca de 3 mil euros (quase R$ 7,5 mil), além dos benefícios como seguro saúde e do direito de viajar em turnê ao lado da família ou tutor (para os menores de idade). Há seis meses na pele do Anjo Manco, já deu para ficar rico? “Mudei material e profissionalmente. Estou trocando técnicas com artistas do mundo todo, aprendendo inglês”, sorri e desconversa o acrobata, que treina cerca de quatro horas por dia, com direito a uma folga semanal, e viaja com a esposa.

Para Raphael, o mais complicado ao entrar no palco não é a dança com as muletas, mas a dramaturgia do espetáculo, onde vive o anjo aleijado que incentiva Ícaro, o personagem principal, a voltar a voar. “O mais difícil é casar corpo, olhar, passar emoção, para não entrar no (piloto) automático”, diz o brasileiro, que ficou quatro anos no Grande Circo Popular do Brasil antes de entrar no Cirque. (T. M.)




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